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Tratamento de Efluentes15 de jun. de 202611 min de leitura

Tratamento de Chorume em Aterros Sanitários

Processos, tecnologias e desafios para gestão segura do lixiviado gerado em aterros

O chorume é um dos efluentes mais complexos gerados por atividades humanas. Produzido pela decomposição da matéria orgânica presente nos resíduos sólidos urbanos, ele carrega uma mistura de compostos orgânicos, metais pesados, amônia, microrganismos patogênicos e substâncias recalcitrantes que resistem à degradação biológica convencional. Sem o manejo adequado, esse líquido escuro e altamente tóxico infiltra no solo, contamina aquíferos e compromete corpos d’água nas proximidades do aterro.

O tratamento de chorume em aterros sanitários é, portanto, uma obrigação técnica e legal, não apenas uma boa prática ambiental. A legislação brasileira, especialmente a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010), exige que os aterros operem com sistemas de impermeabilização, drenagem e tratamento de lixiviado. Ainda assim, muitos empreendimentos enfrentam dificuldades reais para atingir os padrões de lançamento definidos pela Resolução CONAMA 430/2011.

A variabilidade da composição do chorume ao longo do tempo de operação do aterro é um dos maiores desafios para os projetistas. Um aterro jovem gera lixiviado com alta carga orgânica biodegradável. Com o envelhecimento das células, aumenta a fração de compostos húmicos e fúlvicos, que são muito mais difíceis de remover. Entender essa dinâmica é o ponto de partida para dimensionar e operar o sistema de tratamento corretamente.

O que é o chorume e por que ele representa um risco ambiental

Tecnicamente chamado de lixiviado, o chorume resulta da combinação entre a água que percola pelas camadas de resíduos (proveniente de chuvas, da própria umidade dos resíduos e da decomposição da matéria orgânica) e os compostos solubilizados nesse processo. A cor escura, o odor intenso e a viscosidade variável são características imediatamente perceptíveis. Mas o que torna esse efluente verdadeiramente perigoso são seus parâmetros químicos.

A DQO (Demanda Química de Oxigênio) de um lixiviado jovem pode superar 50.000 mg/L, valor entre 50 e 100 vezes maior que o esgoto doméstico comum. A concentração de nitrogênio amoniacal frequentemente ultrapassa 1.000 mg/L, criando toxicidade para os microrganismos usados no tratamento biológico. Além disso, metais como chumbo, cádmio, cromo e mercúrio aparecem em concentrações que inviabilizam o lançamento direto em corpos hídricos. Sem tratamento, o chorume infiltrado no solo pode atingir o lençol freático em questão de meses, dependendo da permeabilidade do terreno e da profundidade do aquífero.

Saiba mais sobre os fundamentos do tratamento de efluentes industriais e os principais processos utilizados para efluentes de alta carga orgânica e composição complexa.

Como é feito o tratamento do chorume no aterro sanitário

Não existe uma solução universal para o tratamento de chorume. O sistema adequado depende do volume gerado, da fase operacional do aterro, dos padrões de lançamento exigidos pelo órgão ambiental e dos recursos disponíveis para operação. Na prática, a maioria dos sistemas combina etapas biológicas, físico-químicas e de separação por membranas em diferentes arranjos.

A sequência mais comum começa com um tratamento biológico anaeróbio, que reduz a carga orgânica bruta. Em seguida, um processo aeróbio (lagoas aeradas ou reatores de lodos ativados) complementa a remoção de DBO e DQO. Para atingir os limites de lançamento, especialmente para nitrogênio amoniacal e compostos recalcitrantes, são necessárias etapas adicionais, como coagulação/floculação, adsorção em carvão ativado ou sistemas de membranas (nanofiltração e osmose reversa).

Recirculação do lixiviado sobre as células do aterro

A recirculação consiste em retornar o chorume coletado ao próprio maciço de resíduos. A técnica acelera a estabilização da matéria orgânica, aumenta a geração de biogás e reduz o volume de lixiviado a ser tratado externamente. Em aterros chamados de biorreatores, a recirculação é adotada de forma sistemática como parte da estratégia operacional.

O método tem limitações claras: não remove amônia nem metais, e pode provocar saturação hídrica do maciço se aplicado sem controle. Por isso, a recirculação é considerada uma etapa de pré-tratamento ou uma medida complementar, nunca uma solução isolada para o tratamento de chorume em aterros sanitários.

Tratamento biológico: lagoas e reatores

As lagoas de estabilização são amplamente usadas em aterros de médio e grande porte, especialmente no Brasil, pela robustez operacional e baixo custo de manutenção. Uma sequência típica inclui lagoa anaeróbia, lagoa facultativa e lagoa de maturação. O sistema funciona bem para lixiviados jovens com alta fração biodegradável, mas perde eficiência quando a relação DBO/DQO cai abaixo de 0,3, o que sinaliza predominância de compostos recalcitrantes.

Reatores de lodos ativados e reatores de membrana biológica (MBR) oferecem maior eficiência de remoção e menor área ocupada. O MBR, em particular, combina o tratamento biológico com a filtração por membranas, produzindo um efluente de qualidade superior e facilitando as etapas subsequentes de polimento. O custo de implantação e a demanda de energia elétrica são os principais fatores que limitam sua adoção em aterros de pequeno porte.

Processos físico-químicos e de separação por membranas

Quando o objetivo é remover cor, compostos húmicos ou metais residuais, os processos físico-químicos entram em cena. A coagulação com sulfato de alumínio ou cloreto férrico, seguida de floculação e sedimentação, reduz a turbidez e a concentração de substâncias coloidais. A adsorção em carvão ativado granular ou em pó complementa a remoção de compostos orgânicos persistentes.

A nanofiltração e a osmose reversa representam o estado da arte no tratamento de chorume. São capazes de reduzir a DQO residual, a condutividade elétrica e praticamente eliminar metais e micropoluentes. O grande desafio operacional é a geração do concentrado, um volume menor de chorume ainda mais concentrado que precisa de destinação adequada (muitas vezes retornado ao maciço ou submetido a evaporação forçada).

Para entender como sistemas biológicos são aplicados em efluentes de alta carga, veja o artigo sobre o reator UASB no tratamento anaeróbio de esgoto, tecnologia também adaptada para pré-tratamento de lixiviados.

Parâmetros de qualidade e padrões de lançamento

A Resolução CONAMA 430/2011 estabelece os padrões gerais para lançamento de efluentes em corpos d’água. Para o chorume de aterros sanitários, os parâmetros mais críticos a serem atendidos são DQO, DBO, nitrogênio amoniacal, metais pesados e pH. Alguns estados possuem legislações mais restritivas, como São Paulo (CETESB) e Rio de Janeiro (INEA), que exigem limites inferiores para determinados parâmetros.

A tabela abaixo resume os principais parâmetros monitorados no tratamento de chorume e os valores típicos encontrados em diferentes fases do aterro:

Parâmetro Aterro Jovem (<5 anos) Aterro Maduro (>10 anos) Limite CONAMA 430/2011
DQO (mg/L) 10.000 – 50.000 1.000 – 5.000 até 200 (eficiência 80%)
DBO (mg/L) 5.000 – 20.000 100 – 500 até 60
N-amoniacal (mg/L) 500 – 2.000 200 – 1.500 20 (nitrificação exigida)
pH 4,5 – 6,5 7,0 – 8,5 5 a 9
Relação DBO/DQO 0,5 – 0,7 0,05 – 0,2 Referência de biodegradabilidade

A relação DBO/DQO é um indicador estratégico. Valores acima de 0,4 indicam boa biodegradabilidade e respondem bem ao tratamento biológico. Abaixo de 0,2, o lixiviado exige processos físico-químicos ou oxidação avançada para atingir os padrões de lançamento. Essa transição é gradual e deve ser monitorada periodicamente para ajustar as etapas do sistema de tratamento.

Proteção do solo e das águas subterrâneas em aterros sanitários

A geração de chorume começa antes mesmo do tratamento: o projeto do aterro deve minimizar sua produção e impedir sua migração. A impermeabilização da base com geomembranas de PEAD (polietileno de alta densidade) associadas a camadas de argila compactada é a principal barreira física contra a contaminação do solo. A eficiência dessa barreira depende da qualidade do material, da espessura da camada e da integridade da instalação.

O sistema de drenagem interna do aterro coleta o chorume gerado e o direciona para tanques de armazenamento (lagoas ou reservatórios cobertos), de onde é enviado ao sistema de tratamento. A drenagem deve ser projetada para suportar os picos de geração nos períodos de maior precipitação, evitando transbordamentos. Em regiões de alta pluviometria, o volume de chorume gerado pode ser cinco vezes maior na estação chuvosa em comparação com a seca.

O monitoramento das águas subterrâneas é obrigatório pela NBR 13.896 da ABNT, que define os critérios para projetos de aterros de resíduos não perigosos. Poços de monitoramento instalados a montante e a jusante do aterro permitem detectar vazamentos precoces nas barreiras impermeabilizantes. Quando identificados, intervenções corretivas precisam ser realizadas com rapidez para evitar a contaminação dos aquíferos, processo que pode levar anos para ser revertido.

A cobertura das células encerradas com solo compactado, geomembrana e camada de solo vegetal reduz a infiltração de água da chuva, diminuindo significativamente o volume de chorume gerado nas etapas finais do aterro. É uma medida simples e economicamente vantajosa, pois reduz os custos operacionais do sistema de tratamento a longo prazo.

Tecnologias emergentes e tendências no tratamento de lixiviado

Os processos oxidativos avançados (POA) têm ganhado espaço como alternativa para tratar o chorume de aterros maduros, nos quais a fração recalcitrante predomina. A combinação de ozônio com peróxido de hidrogênio (O3/H2O2) ou com radiação ultravioleta gera radicais hidroxila altamente reativos, capazes de degradar compostos orgânicos persistentes que resistem ao tratamento biológico convencional. O custo energético ainda é uma barreira, mas a tecnologia é cada vez mais viável para sistemas de polimento final.

A evaporação forçada é outra tecnologia que tem sido adotada, especialmente em regiões de alta temperatura e baixa umidade relativa. O chorume é pulverizado sobre superfícies aquecidas ou sobre biogás em chamas, evaporando a fração líquida e concentrando os sólidos para destinação controlada. A técnica reduz drasticamente o volume a ser gerenciado, mas exige cuidado rigoroso para evitar emissões de compostos orgânicos voláteis na atmosfera.

A integração entre o sistema de tratamento de chorume e o aproveitamento do biogás gerado no aterro cria sinergias operacionais interessantes. O calor recuperado da queima ou da geração de energia pode ser usado para aquecimento de reatores biológicos termofílicos ou para os sistemas de evaporação, reduzindo o consumo de energia externa. Aterros de grande porte já operam com essa integração, tornando o tratamento do lixiviado parte de um ciclo energético mais eficiente.

Sistemas de tratamento como wetlands construídos também têm sido investigados para o polimento final do lixiviado. Veja como os wetlands construídos funcionam no tratamento de efluentes e como podem ser adaptados a essa aplicação.

Perguntas Frequentes

Como é feito o tratamento do chorume no aterro sanitário?

O tratamento de chorume em aterros sanitários combina etapas biológicas (lagoas de estabilização, lodos ativados ou reatores de membrana biológica), físico-químicas (coagulação, floculação, adsorção em carvão ativado) e de separação por membranas (nanofiltração e osmose reversa). A sequência e a intensidade de cada etapa dependem da composição do lixiviado, da fase do aterro e dos padrões de lançamento exigidos pelo órgão ambiental licenciador.

O que acontece com o chorume no aterro sanitário?

O chorume é gerado continuamente pela decomposição dos resíduos e pela infiltração de água da chuva. No aterro sanitário, ele é coletado por um sistema de drenos internos e encaminhado para tanques de armazenamento ou diretamente ao sistema de tratamento. Sem esse sistema de coleta e tratamento, o lixiviado infiltra no solo, contamina o lençol freático e pode atingir rios e córregos próximos ao aterro.

Como tratar o chorume?

O chorume pode ser tratado por uma combinação de processos biológicos aeróbios e anaeróbios, processos físico-químicos e tecnologias de membranas. A escolha depende da biodegradabilidade do efluente (medida pela relação DBO/DQO): lixiviados jovens respondem bem ao tratamento biológico, enquanto lixiviados maduros exigem processos de oxidação avançada ou membranas de alta pressão para atingir os limites de lançamento. A recirculação sobre o maciço é usada como etapa auxiliar de pré-tratamento.

Como os aterros sanitários podem proteger os solos do lixo e do chorume?

A proteção começa no projeto do aterro, com a impermeabilização da base por geomembranas de PEAD associadas a camadas de argila compactada. O sistema de drenagem interna coleta o chorume e impede sua migração lateral. A cobertura adequada das células encerradas reduz a infiltração de chuva e, consequentemente, o volume de lixiviado gerado. O monitoramento contínuo de poços de observação ao redor do aterro permite identificar falhas nas barreiras antes que a contaminação se propague pelo solo.

Referências

  • ABNT NBR 13.896:1997 — Aterros de resíduos não perigosos: critérios para projeto, implantação e operação. Associação Brasileira de Normas Técnicas.
  • CONAMA. Resolução n.º 430, de 13 de maio de 2011 — Dispõe sobre as condições e padrões de lançamento de efluentes. Ministério do Meio Ambiente, Brasília.
  • SILVA, A. C. et al. Tratamento de lixiviado de aterro sanitário: uma revisão das tecnologias aplicadas no Brasil. Engenharia Sanitária e Ambiental, v. 26, n. 3, p. 451-462, 2021. ABES.
  • BRASIL. Lei n.º 12.305, de 2 de agosto de 2010 — Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Diário Oficial da União, Brasília.
  • RENOU, S. et al. Landfill leachate treatment: Review and opportunity. Journal of Hazardous Materials, v. 150, n. 3, p. 468-493, 2008. Elsevier.

O tratamento de chorume em aterros sanitários exige uma visão de sistema integrado, não apenas a escolha de uma tecnologia isolada. A composição do lixiviado muda com o tempo, os padrões regulatórios se tornam mais rígidos e os custos operacionais precisam ser sustentáveis ao longo de décadas. Por isso, o monitoramento contínuo dos parâmetros de qualidade e a flexibilidade do sistema para incorporar novas etapas de tratamento são tão importantes quanto o dimensionamento inicial.

Gestores e engenheiros que atuam nessa área precisam combinar conhecimento técnico sólido com capacidade de adaptação operacional. A proteção do solo e das águas subterrâneas não é um resultado automático da existência do aterro sanitário: é o produto de um projeto bem executado, de uma operação disciplinada e de um programa de monitoramento que não deixa lacunas.

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